Há uma maneira certa e uma maneira errada de rever as permissões concedidas às aplicações, e a diferença está na ordem.
A maneira errada: abrir a lista das aplicações e verificá-las uma a uma. São dezenas, a paciência acaba à décima quinta, e as mais importantes estão provavelmente no fim da ordem alfabética.
A maneira certa: abrir a lista por permissão, começando pelas quatro que contam. São quatro ecrãs, dez minutos, e cobrem quase todo o risco.
É o lado prático da recomendação verificar as permissões das aplicações, que explica porque é que a revisão faz falta: aqui fica o como — onde procurar, o que deves encontrar e o que fazer com o que não devia lá estar. Os caminhos nos menus variam de sistema para sistema e de versão para versão, por isso são descritos pela função — a caixa de pesquisa das definições encontra quase sempre a secção certa se escreveres o nome da permissão.
Nota de variante: este texto está em português europeu. Onde se lê aplicação, no Brasil diz-se aplicativo; ecrã é tela e definições são configurações.
Passo 1: as quatro permissões a ver primeiro
Por esta ordem, porque é a ordem de potência.
1. Acessibilidade
É a permissão mais poderosa do sistema: permite ler o ecrã e agir no teu lugar.
Onde: nas definições, na secção da acessibilidade, na parte dos serviços ou aplicações instalados. Nalguns sistemas há também, na secção de privacidade e segurança, entradas sobre o controlo do dispositivo que vale a pena abrir.
O que deves encontrar: ferramentas de apoio verdadeiras — leitores de ecrã, ampliadores, sistemas de controlo alternativo — e mais nada.
O que fazer: se houver alguma coisa que não reconheces ou que não é uma ferramenta de apoio, desativa-a e pondera desinstalar a aplicação. É a verificação isolada mais importante deste guia.
2. Acesso às notificações
Permite ler o conteúdo de todas as notificações que chegam, códigos de verificação incluídos.
Onde: nas definições das notificações, numa entrada chamada acesso às notificações ou semelhante. Nalguns sistemas esta permissão é muito mais limitada por conceção, e a lista pode estar praticamente vazia.
O que deves encontrar: aplicações de relógios e pulseiras inteligentes, que precisam de mostrar as notificações no pulso, e assistentes para o carro.
O que fazer: revoga tudo o resto.
3. Contactos
Expõe dados de outras pessoas.
Onde: na secção de privacidade, na entrada dos contactos.
O que deves encontrar: aplicações de mensagens e de chamadas.
O que fazer: retira-a a tudo o que não tem uma razão evidente. Se o sistema o permitir, usa a partilha de contactos selecionados em vez da lista inteira.
4. Microfone e câmara
Onde: na secção de privacidade, em duas entradas separadas.
O que deves encontrar: aplicações de comunicação, gravação, fotografia e digitalização de documentos.
O que fazer: retira-as ao resto. Onde existir a opção «perguntar sempre», é ótima para as aplicações que os usam raramente.
Passo 2: as opções intermédias
Os sistemas atuais não oferecem só sim e não. Usar os meios-termos é o que torna a revisão sustentável.
| Opção | O que faz | Quando usar |
|---|---|---|
| Só durante a utilização | Acesso limitado à aplicação que está aberta | A escolha por omissão para quase tudo |
| Perguntar sempre | Pedido a cada utilização | Aplicações usadas raramente |
| Fotografias selecionadas | Só as imagens que escolhes | Em vez da galeria inteira |
| Contactos selecionados | Só os contactos que escolhes | Em vez da lista completa |
| Localização aproximada | Uma zona em vez de um ponto | Meteorologia, notícias, conteúdos locais |
As linhas da seleção parcial são a novidade mais útil dos últimos anos: deixam uma aplicação funcionar sem lhe dar tudo, o que é quase sempre a resposta certa.
Passo 3: as permissões especiais
Estão em secções à parte e raramente alguém olha para elas.
Administração do dispositivo. Costuma estar nas definições de segurança. Deve estar vazia, com a exceção de ferramentas da empresa que conheces e aceitaste.
Instalação de fontes desconhecidas. Nas definições das aplicações, na entrada sobre a instalação de aplicações. Deve estar desativada para todas.
Sobreposição a outras aplicações. Permite desenhar por cima dos outros ecrãs. Há usos legítimos — bolhas de conversa, filtros de luz noturna —, mas convém saber quem a tem.
Exceções à otimização da bateria. Permitem a uma aplicação ficar ativa em segundo plano sem limites. Úteis para mensagens e despertadores; suspeitas no resto.
Perfis de configuração. Nalguns sistemas aparecem nas definições gerais, numa secção sobre gestão do dispositivo e VPN. Num dispositivo pessoal, esta lista deve estar vazia.
Passo 4: as extensões do browser
É o ponto mais esquecido de toda a unidade, e está entre os mais relevantes.
Uma extensão do browser pode ter autorização para ler e alterar tudo o que vês nos sites — incluindo aqueles onde escreves as tuas credenciais.
Onde: no menu do browser, na entrada das extensões ou dos complementos.
O que fazer:
- remove as que não usas. São a maioria: instalam-se para uma necessidade passageira e ficam;
- vê as permissões das que ficam. O browser enumera-as;
- limita o acesso aos sites onde fazem falta, quando o browser o permite;
- confirma que continuam a ser mantidas. Uma extensão abandonada pelo autor pode ter sido vendida a outros, e é um caso documentado.
Passo 5: a manutenção automática
Duas definições que fazem o trabalho por ti.
A remoção automática das permissões nas aplicações sem uso. Os sistemas principais oferecem uma função que retira as permissões às aplicações que não abres há alguns meses. Confirma que está ativa: é a manutenção ideal, porque não te pede nada.
O arquivamento das aplicações que não usas. Alguns sistemas conseguem desinstalar automaticamente as aplicações sem uso, guardando os dados. A lista encolhe sem perderes nada.
Um plano em dez minutos para rever as permissões concedidas
Primeiro e segundo minuto: acessibilidade. A verificação mais importante. Só deve conter ferramentas de apoio.
Terceiro e quarto minuto: notificações e permissões especiais. Acesso às notificações, administração do dispositivo, instalação de fontes externas.
Do quinto ao sétimo minuto: contactos, microfone, câmara. Três ecrãs, revogação para quem não tem razão.
Oitavo e nono minuto: extensões do browser. Remove as que não usas.
Décimo minuto: a manutenção automática. Ativa a remoção das permissões nas aplicações sem uso.
Feito isto, a revisão seguinte vai levar dois minutos, porque a lista já estará arrumada. Uma boa ocasião para a repetir é a grande atualização anual do sistema: é quando as opções de permissão costumam mudar.
O que fazer quando chega um pedido novo
A revisão arruma o passado. Esta parte serve para não teres de a repetir.
Faz uma pausa de um segundo. É a única coisa que conta de verdade; o resto vem daí.
Pergunta a ti próprio se a aplicação funcionaria sem isto. Se a função que estás a usar naquele momento precisa daquela permissão, a resposta é evidente. Se não há relação, também.
Procura a opção intermédia. Se o sistema oferece «só desta vez» ou «só durante a utilização», é quase sempre a resposta certa.
Na dúvida, recusa. É a escolha reversível: se alguma coisa deixar de funcionar, voltas a conceder em dois toques. O contrário não vale — os dados recolhidos não voltam para trás.
Desconfia dos pedidos em série. Uma permissão concedida não justifica a seguinte. Se depois do primeiro sim chega um segundo pedido, convém pensar duas vezes.
Trata a acessibilidade como um caso à parte. Se uma aplicação que não é uma ferramenta de apoio pede essa permissão, a resposta é não — por mais convincente que seja a justificação. É a única regra sem exceções desta unidade.
São cinco segundos, e substituem horas de revisão mais tarde.
O critério, numa linha
Se tivesse de ficar uma só coisa deste guia:
Uma aplicação deve ter apenas as permissões sem as quais não conseguiria fazer aquilo para que a instalaste.
Tudo o resto — por muito bem justificado que venha no pedido — é acessório, e pode ser revogado sem consequências no uso que lhe dás.
E se depois da revogação alguma coisa deixar de funcionar, descobres logo e voltas a conceder em dois toques. É por isso que esta revisão não traz riscos: é inteiramente reversível.
As objeções mais frequentes
«Se revogar, a aplicação deixa de funcionar.» Algumas funções sim, e nesse caso percebes logo. A maior parte das aplicações lida com a recusa sem problemas, porque foi feita para isso. Experimentar não custa nada e é reversível.
«São aplicações a mais para verificar.» Não é preciso verificá-las todas. O método por permissão reduz o trabalho a quatro ecrãs — e nesses quatro está quase todo o risco.
«Já aceitei, agora é tarde.» Para os dados já recolhidos, sim; para os futuros, não. A revogação tem efeito imediato, e é uma das poucas medidas desta série com um resultado que se vê e se confirma.
«As aplicações da loja oficial são controladas.» São, e esses controlos reduzem muito o risco de aplicações abertamente nocivas. Mas não tratam da quantidade de dados que uma aplicação legítima recolhe: essa está declarada, é permitida, e cabe-te a ti decidir se te serve.
«Não tenho nada a esconder.» A questão não é o que escondes, é quem decide. E num caso — os contactos — a decisão diz respeito também a pessoas que não és tu.
«Se desinstalar a aplicação, fica tudo resolvido.» Fica resolvido o futuro. Os dados já enviados continuam onde estão, e a conta criada dentro da aplicação mantém-se ativa até a fechares.
Reduzir as aplicações, não só as permissões
Um caminho alternativo que muitas pessoas acham mais eficaz do que a revisão das permissões.
A permissão mais segura é a que ninguém pede, e uma aplicação desinstalada já não pede nada.
Como fazer. Ordena a lista das aplicações pela última utilização — os sistemas principais permitem-no. As que não abres há seis meses são quase sempre desinstaláveis sem arrependimentos.
O que costuma aparecer. O Miguel fez o exercício num domingo à tarde: encontrou uma aplicação de um festival de verão no Porto, outra de um parque de estacionamento em Lisboa usada uma vez, dois jogos esquecidos e uma lanterna com acesso aos contactos. Cinco aplicações a menos, e com elas uma dúzia de permissões.
O que ganhas. Menos permissões ativas, menos processos em segundo plano, menos consumo, e uma lista muito mais curta na revisão seguinte.
Uma alternativa intermédia. Alguns sistemas permitem arquivar uma aplicação em vez de a desinstalar: o programa sai, os dados ficam, e ao reinstalar encontras tudo como estava. É a escolha certa para as aplicações sazonais — as de viagem, de eventos, de serviços que usas uma vez por ano.
Um caso a avaliar à parte: as aplicações pré-instaladas. Algumas não se podem desinstalar, mas quase todas se podem desativar, o que trava a atividade e as permissões.
Ligação ao Framework Cyber Welfare
Este guia trabalha sobretudo o saber fazer: transforma uma intenção vaga — «tenho de ver isso das permissões» — num método com ordem e com fim.
| Pilar | Contributo deste conteúdo |
|---|---|
| Competências | Rever por permissão em vez de por aplicação, e usar as opções intermédias |
| Consciência | Saber que as extensões do browser têm permissões muito amplas |
| Comportamento Seguro | Verificar a acessibilidade e as notificações em primeiro lugar |
Níveis de maturidade digital.
- FL1 – Básico. Nunca abriste a lista de permissões, ou abriste-a aplicação a aplicação e desististe a meio.
- FL2 – Inicial. Fazes a revisão por permissão, começando pela acessibilidade e pelas notificações.
- FL3 – Autónomo. Incluis na revisão as permissões especiais e as extensões do browser.
- FL4 – Hábil. Tens a remoção automática ativa e repetes a revisão duas vezes por ano em todos os dispositivos da casa.
- FL5 – Especialista-Guia. Acompanhas outras pessoas nos seus primeiros dez minutos de revisão.
Nível de referência: FL2 – Inicial. Passas a FL3 quando incluis na revisão as permissões especiais e as extensões.
O que podes verificar hoje
Lista breve
- ☐ A acessibilidade só tem ferramentas de apoio
- ☐ O acesso às notificações está limitado ao relógio ou ao carro
- ☐ Contactos, microfone e câmara revistos, com revogação onde não havia razão
- ☐ Administração do dispositivo e fontes desconhecidas sem entradas estranhas
- ☐ Extensões do browser reduzidas às que uso
- ☐ Remoção automática das permissões ativa
Para uma medida mais estruturada do teu nível, podes fazer a Autoavaliação de Resiliência Digital.
Resumo
- Revê por permissão, não por aplicação: são quatro ecrãs em vez de cinquenta.
- A acessibilidade é a verificação mais importante: só deve ter ferramentas de apoio.
- As opções intermédias — fotografias e contactos selecionados — tornam a revisão sustentável.
- As extensões do browser são o ponto mais esquecido e dos mais relevantes.
Rever as permissões concedidas não exige conhecimentos técnicos; exige uma ordem. Se quiseres perceber o mecanismo por trás das opções intermédias, está explicado em como funcionam as permissões das aplicações.
Ação concreta para hoje. Abre a secção da acessibilidade nas definições e vê a lista dos serviços ativos. Só deve ter ferramentas de apoio: se tiver outra coisa, encontraste o mais importante a arrumar.
Conteúdos relacionados
- verificar as permissões das aplicações — a recomendação de onde nasce este guia, e a referência geral sobre as permissões das aplicações
- impacto de permissões excessivas — porque é que estas quatro vêm primeiro
- como funcionam as permissões das aplicações — o mecanismo por trás das opções intermédias
- sinais de aplicações que recolhem dados — o que notar depois da revisão
- indicadores de compromissão — a entrada de glossário sobre os sinais de um dispositivo afetado
- instalar aplicações apenas das lojas oficiais — a recomendação sobre a origem das aplicações, o primeiro filtro antes de qualquer pedido de permissão
Dá o primeiro passo: o Programa «Protege a Tua Privacidade Digital» acompanha-te gratuitamente, uma recomendação de cada vez.









