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Avaliações falsas nas aplicações: porque as estrelas dizem pouco

Ficha complementar da lição “Avaliações falsas: porque as estrelas dizem pouco” — curso Segurança Online

Uma média de cinco estrelas com cinquenta mil avaliações parece prova. Mas as avaliações são baratas de comprar e fáceis de gerar: o número em que mais confias é o mais fácil de fabricar.

Uma nota de vocabulário, dita uma vez: a lei portuguesa chama-lhes «avaliações de consumidores», e é essa a palavra desta ficha. O CNCS escreve «revisões de utilizadores»; a DECO PROteste e a ANACOM, «comentários» e «fake reviews».

A ideia-chave: trata a classificação como um sinal fraco entre vários, e lê em vez disso as avaliações negativas recentes. É lá que estão as queixas concretas e verificáveis.

A. Porque é que isto conta

As avaliações existem para te ajudar a escolher. Funcionam razoavelmente bem em aplicações populares de entidades conhecidas, e muito pior onde precisas delas: numa aplicação de que nunca ouviste falar, de alguém que não consegues situar.

As avaliações podem ser compradas, geradas automaticamente ou extraídas a utilizadores por uma aplicação que não funciona até ser classificada. As três coisas são baratas, e as três produzem um número igual ao que uma boa aplicação teria.

O que a lei portuguesa diz — e esta parte é portuguesa

Em Portugal isto não é só uma questão de bom senso: é proibido. O Decreto-Lei n.º 109-G/2021, de 10 de dezembro, que transpôs a diretiva europeia sobre práticas comerciais desleais, obriga quem explora um mercado em linha a «adotar as medidas de diligência adequadas», designadamente a «assegurar a verificação de existência prévia de transação comercial efetuada por aquele consumidor, sempre que a avaliação esteja anunciada como tendo por base a aquisição prévia do produto ou serviço» (artigo 4.º-B).

E põe duas práticas na lista negra — as que são proibidas em qualquer circunstância, sem ser preciso provar que alguém foi prejudicado: declarar que as avaliações vêm de consumidores que usaram ou compraram o produto «sem adotar medidas razoáveis e proporcionadas para verificar» que é verdade (alínea cc)); e «apresentar avaliações ou recomendações falsas de consumidores ou instruir uma terceira pessoa» para o fazer (alínea dd)).

Duas consequências práticas. A primeira: quando uma loja diz que as avaliações são de compradores verificados, essa afirmação tem de ser sustentada — e é aí que a informação vale algo. A segunda: a fiscalização é da ASAE, e uma prática da lista negra é denunciável sem demonstrar prejuízo. O que a lei não faz é limpar as lojas por ti: em 2022, numa ação coordenada das autoridades europeias de consumo, em 144 de 223 sites não foi possível confirmar que o comerciante tomava medidas para garantir a autenticidade das avaliações.

B. Conceitos-chave

Seis ideias sobre o sinal e sobre a sua manipulação.

Manipulação da classificação

Comprar avaliações, gerá-las automaticamente, ou pedir a classificação apenas aos utilizadores satisfeitos.

Porque é que isto te interessa: a última destas é legal e extremamente comum, e é por isso que uma média te diz tanto sobre a estratégia de pedir como sobre a aplicação. As duas primeiras, em Portugal, estão na lista negra do Decreto-Lei n.º 109-G/2021.

Avaliações extraídas sob pressão

Uma aplicação que bloqueia uma função até a classificares, ou que pede repetidamente.

Porque é que isto te interessa: produz contas verdadeiras a dar classificações sob uma coação leve. Vale a pena notar quando te acontece.

Padrões que se veem

Muitas avaliações num curto período, elogios genéricos sem nada de concreto, frases parecidas entre si, autores sem outras avaliações. A DECO PROteste acrescenta um padrão específico: «muitas avaliações excelentes (cinco estrelas) e, em simultâneo, bastantes muito negativas», sem quase nada pelo meio.

Porque é que isto te interessa: nenhum prova nada sozinho. Vários juntos são base razoável para procurar noutro sítio.

As avaliações negativas recentes

Ordenadas por mais recentes, filtradas por uma e duas estrelas.

Porque é que isto te interessa: é a vista mais informativa da página. As queixas sobre cobranças, sobre uma atualização recente ou sobre não se conseguir cancelar são concretas e verificáveis.

O historial de quem publica

O que mais essa entidade publicou, e desde quando.

Porque é que isto te interessa: quem tem várias aplicações mantidas ao longo de anos é uma proposta diferente de quem tem uma só, publicada no mês passado.

Fontes independentes

Cobertura fora da loja, de publicações ou comunidades em que já confias. O CNCS pede exatamente isto ao recomendar que se verifique «se as revisões de utilizadores e especialistas são positivas»: utilizadores e especialistas, não só utilizadores.

Porque é que isto te interessa: para qualquer aplicação que lide com dinheiro ou dados sensíveis, valem os dois minutos a mais. Muitos sites de análises ganham dinheiro com o que recomendam.

C. Um exemplo concreto: 4,7 estrelas

Uma aplicação tem 4,7 estrelas e trinta mil classificações. Parece bem estabelecida.

Ordenada por mais recentes, uma estrela

  • Onze avaliações este mês a descrever uma cobrança que ninguém esperava.
  • Várias a dizer que a subscrição não se consegue cancelar dentro da aplicação.
  • Duas a dizer que a aplicação mudou completamente depois de uma atualização.

A média não se mexeu, porque trinta mil classificações absorvem algumas centenas de queixas recentes. Mas são as queixas recentes que descrevem o que a aplicação está a fazer agora.

É esta a técnica prática: a média descreve o passado da aplicação, as avaliações negativas recentes descrevem o seu presente.

D. Experimenta: ler bem uma página da loja

5 minutos, numa aplicação que estás a considerar ou numa que já usas.

Passo 1 — Ignora a média

  • Nota-a e passa adiante. É o número menos informativo da página.

Passo 2 — Ordena por recentes, filtra por uma e duas estrelas

  • Lê cinco.
  • Procuras queixas concretas e repetidas — não pessoas que não gostaram do aspeto.

Passo 3 — Olha para quem publica

  • O que mais publicou?
  • Desde quando publica?

Passo 4 — Para tudo o que lide com dinheiro ou dados, olha fora da loja

  • Uma pesquisa pelo nome da aplicação mais «problema» ou «análise» leva um minuto.
  • Tem presente que muito do conteúdo sobre aplicações é pago por comissões de afiliação.

Só o passo 2 já muda a maior parte das decisões. É mais rápido do que ler a descrição e consideravelmente mais informativo.

E. Vídeos, artigos e outros recursos

Fontes portuguesas primeiro; fontes internacionais onde o material português não cobre o ponto.

Decreto-Lei n.º 109-G/2021, de 10 de dezembro (PDF oficial do Diário da República)

O texto que proíbe as avaliações falsas em Portugal: artigo 4.º-B e as alíneas cc) e dd) da lista negra. A página HTML do Diário da República exige JavaScript; o PDF abre.
https://files.dre.pt/1s/2021/12/23801/0000200052.pdf

gov.pt — Práticas comerciais desleais em Portugal (atualizado a 11/05/2026)
O enquadramento e a autoridade de fiscalização, a ASAE. Não nomeia as avaliações: a proibição está no decreto-lei acima.
https://www.gov.pt/guias/praticas-comerciais-desleais-em-portugal

DECO PROteste — Fake reviews no Facebook continuam sem controlo
Polarização das estrelas, concentrações no tempo, e preferir os «comentários verificados, feitos por quem realmente comprou». Sem paywall; sem data visível, é um texto antigo.
https://www.deco.proteste.pt/tecnologia/computadores/noticias/fake-reviews-no-facebook-continuam-sem-controlo

ANACOM — Comissão Europeia alerta para conteúdos ilegais e fraudes online (19/12/2025)
O conselho de olhar para «avaliações, comentários e sinais de vendedor verificado».
https://www.anacom-consumidor.pt/-/comissao-europeia-alerta-para-conteudos-ilegais-e-fraudes-online

CNCS — Boas práticas no uso de smartphones (15/04/2024): «verifique se as revisões de utilizadores e especialistas são positivas»
https://www.cncs.gov.pt/pt/boas-praticas-para-smartphones/

NOVA Consumer Lab — As principais alterações introduzidas pelo Decreto-Lei n.º 109-G/2021 (28/12/2021)
Leitura jurídica portuguesa do regime e do dever de informar se as avaliações são verificadas.
https://novaconsumerlab.novalaw.unl.pt/as-principais-alteracoes-introduzidas-pelo-decreto-lei-n-o-109-g-2021-de-10-de-dezembro-ao-decreto-lei-n-o-57-2008-de-26-de-marco-breve-analise-do-regime-das-praticas-comerciais-desleais/

FTC (Estados Unidos) — Protect your personal information from hackers and scammers
Em inglês: práticas enganosas de consumo, incluindo recomendações manipuladas. As técnicas de deteção para o leitor comum continuam em fontes anglófonas: nenhuma fonte portuguesa as desenvolve além dos sinais da DECO.
https://consumer.ftc.gov/articles/protect-your-personal-information-hackers-and-scammers

Ligações verificadas em setembro de 2026.

F. O Framework Cyber Welfare: Competências, Consciência, Comportamento Seguro

Esta lição assenta no pilar Consciência, ao nível FL2, e afina a verificação descrita na ficha sobre perceber se uma aplicação é de confiança.

Competências

  • Ordenar e filtrar as avaliações para chegar às informativas.
  • Reconhecer padrões que sugerem manipulação.
  • Ver o historial de quem publica.

Para profissionais e organizações

  • Não aprovar software com base nas classificações das lojas.

Consciência

  • Perceber que a classificação é o campo mais fácil de fabricar.
  • Reconhecer que pedir a avaliação só a quem está satisfeito é legal e distorce o número, enquanto apresentar avaliações falsas está proibido em Portugal.
  • Saber que as avaliações negativas recentes descrevem o comportamento atual da aplicação.

Para futuros formadores e embaixadores

  • Fazer a demonstração ao vivo: ordenar e filtrar leva quinze segundos e muda a leitura de uma página da loja.

Comportamento Seguro

  • Ler as avaliações recentes em vez da média.
  • Ver o que mais publicou quem publica.
  • Procurar fora da loja antes de instalar qualquer coisa que lide com dinheiro.

Para organizações

  • Manter uma lista de aplicações aprovadas, em vez de deixar cada pessoa julgar sozinha.

G. Perguntas para levar contigo

  1. Na última vez que escolheste entre duas aplicações, em que te baseaste?
  2. Já leste as avaliações de uma estrela antes de instalar?
  3. Alguma aplicação já se recusou a funcionar até a classificares?
  4. Uma média de 4,7 far-te-ia mudar de ideias se as avaliações recentes descrevessem cobranças inesperadas?

H. O que fazer agora

As recomendações (R) e as medidas de segurança (MS) da base Cyber Welfare que se aplicam aqui.

Ao escolher

  • R26 — Instala das lojas oficiais, e só o que foste procurar.
  • R25 — Verifica a autenticidade da aplicação: quem publica, historial, avaliações recentes.
  • R13 — Vê as permissões na página da loja antes de instalar.

Compromisso mínimo: lê cinco avaliações recentes de uma estrela. São os trinta segundos mais valiosos da página.

Depois de instalar

  • R6 — Mantém a aplicação atualizada.
  • R13 — Revê as permissões de vez em quando, porque uma atualização pode mudar o que a aplicação faz.
  • R22 — E se a aplicação deixou de fazer sentido depois de uma atualização, elimina-a.

Em resumo

  • A média é o campo mais fácil de fabricar, e o menos informativo da página.
  • Pedir a classificação só a quem está satisfeito é legal e distorce o número.
  • Em Portugal, apresentar avaliações falsas está na lista negra do Decreto-Lei n.º 109-G/2021: é proibido em qualquer circunstância, e a fiscalização é da ASAE.
  • As avaliações negativas recentes descrevem o que a aplicação está a fazer agora.
  • O historial de quem publica é um sinal melhor do que a pontuação.

Outros recursos deste curso

A verificação e as categorias onde mais conta:

  • Perceber se uma aplicação é de confiança antes de a instalar
  • Aplicações com subscrições escondidas: pagar muito por quase nada
  • Aplicações de segurança falsas: reconhecer as imitações

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