A Sara pega no telemóvel depois do jantar e encontra três notificações. Um pedido de amizade de uma colega do novo escritório, outro de um perfil com o nome de uma rapariga que talvez tenha andado com ela no secundário, e um terceiro de um homem sorridente, fotografado de farda, sem nenhum amigo em comum. Aceitar leva um segundo, e recusar parece quase falta de educação. É neste gesto pequeno, repetido sem pensar, que começa a ideia de seguir apenas pessoas conhecidas nas redes sociais.
Esse gesto, porém, não é só um cumprimento. Cada pessoa que entra na tua lista de contactos ganha um lugar na sala onde partilhas fotografias, deslocações, aniversários, os nomes dos teus filhos, o café onde tomas o pequeno-almoço. Um perfil desconhecido, uma vez lá dentro, vê tudo isto como o veem os teus amigos. E pode usá-lo, mesmo meses depois, para fins que nada têm a ver com amizade.
Esta recomendação — a R23 do Framework Cyber Welfare — não te pede que te feches nem que desconfies de toda a gente. As redes sociais também servem para conhecer pessoas novas, reencontrar antigos colegas e acompanhar quem te inspira. Pede-te uma coisa mais simples: decidir com consciência quem tem acesso às tuas informações. Aprende-se em poucos minutos e aplica-se sempre da mesma maneira, em qualquer plataforma.
Nota de variante: este texto está em português europeu. Onde se lê telemóvel, no Brasil diz-se celular; definições são configurações e aplicação é aplicativo.
O que significa seguir apenas pessoas conhecidas nas redes sociais
A recomendação R23 estabelece que entre os contactos que veem os teus conteúdos pessoais entram sobretudo pessoas que conheces de facto, com quem tens uma relação verdadeira.
«Conhecer de facto» quer dizer duas coisas:
- sabes quem é a pessoa fora do ecrã, ou tens maneira de o confirmar;
- a relação existe para além do pedido: já falaram, já se encontraram, trabalharam ou estudaram juntos.
O segundo ponto é o que mais facilmente escapa. Um nome familiar, uma fotografia credível e dez amigos em comum não chegam: são precisamente os elementos que um perfil falso — uma conta criada para se fazer passar por alguém ou para parecer uma pessoa que não existe — procura pôr em evidência.
Seguir uma fonte e abrir a porta são coisas diferentes. Seguir o perfil público de um jornal, de uma entidade, de um divulgador ou de um artista quer dizer receber os conteúdos dessa fonte: és tu quem olha. Aceitar um pedido de amizade, ou deixar alguém entrar entre os seguidores de um perfil privado, é o movimento contrário: é essa pessoa que passa a olhar para ti. A R23 diz respeito sobretudo a este segundo movimento.
O que não é. Não é uma proibição de fazer novos conhecimentos online, nem um convite a desconfiar de todos. Quem conheces num grupo de interesses ou num curso pode tornar-se um contacto: basta que o acesso à tua vida chegue depois da confiança, e não antes. Também não é um guia das definições de privacidade das plataformas, que são um tema à parte e serão tratadas nas futuras Medidas de Segurança dedicadas às redes sociais.
Onde se aplica. Em todos os espaços onde alguém se pode tornar teu contacto: perfis pessoais, aplicações de mensagens com estados e histórias visíveis, plataformas profissionais, grupos de pais, comunidades de jogos, aplicações de encontros.
Porque é que isto importa
O círculo de contactos é como a lista de quem tem a chave de casa. Pouco importa quão resistente é a porta: quem tem uma cópia da chave entra quando quer.
Nas redes sociais, o que partilhas «só com os amigos» é muitas vezes bem mais pessoal do que o que publicas em aberto. Junto, conta onde vives, a que horas sais, quem é a tua família, para onde vais de férias, o que te apaixona. Para quem te quer enganar — ou enganar alguém usando o teu nome — é matéria-prima valiosa.
O mecanismo que explora estas informações chama-se engenharia social: levar uma pessoa a fazer alguma coisa — pagar, clicar, revelar um código — apoiando-se na confiança e não numa falha técnica. Quanto mais pessoal parece uma mensagem, mais credível é. E um contacto desconhecido que te observa há meses consegue escrever uma mensagem muito pessoal. É uma forma de ameaça informática que não precisa de nenhum programa: precisa de ti.
As consequências concretas notam-se em quatro frentes:
- privacidade — fotografias, hábitos e lugares visíveis para pessoas que nunca viste;
- enganos à medida — mensagens construídas com os teus pormenores, dirigidas a ti ou aos teus amigos;
- uso da tua rede — um perfil falso que tu aceitaste parece mais fiável aos olhos dos teus contactos;
- tempo e tranquilidade — denúncias, explicações, contas para arrumar e a sensação desagradável de ter sido observado.
Há um aspeto que merece atenção especial: a tua escolha protege também os outros. Quando aceitas um perfil, os teus amigos veem que estão ligados e tendem a confiar mais nele. Um círculo cuidado é um favor que fazes a quem está perto de ti.
| Benefício de um círculo de contactos cuidado | Porque conta |
|---|---|
| Sabes quem vê o quê | O que partilhas chega às pessoas para quem o pensaste |
| Reduz o material para enganos | Menos pormenores pessoais nas mãos de quem não conheces |
| Protege amigos e família | Um perfil falso não pode usar o teu nome para parecer credível |
| Torna mais fácil notar anomalias | Num círculo que conheces, um comportamento estranho salta à vista |
| Deixa-te o controlo | És tu que decides quando um conhecimento online passa a contacto |
Um exemplo concreto
Voltemos à Sara. O perfil da rapariga do secundário tem o nome certo e uma fotografia desfocada na praia. Há oito amigos em comum, e a Sara reconhece dois nomes. Aceita.
Durante umas semanas não acontece nada. O perfil deixa alguns «gostos», comenta uma fotografia do cão, dá os parabéns no dia de anos. Entretanto vê as fotografias da festa, o nome da escola do filho da Sara e a terra onde ela vai passar o verão.
Um dia chega uma mensagem privada: «Olá, Sara, estou aflita, perdi a carteira em viagem. Consegues mandar-me dinheiro por transferência? Devolvo-te tudo amanhã.» Ou então a mensagem não chega a ela, mas à irmã da Sara, que vê que as duas são amigas e confia.
Ninguém «entrou» na conta da Sara. Bastou entrar no círculo pela porta principal.
O ponto em que esta cadeia se quebra é o primeiro: uma pergunta rápida, por outro canal, a quem conhecia mesmo aquela colega de escola. «Tens notícias da Inês? Mandou-me um pedido de amizade.» Muitas vezes a resposta chega num minuto: «A Inês já tem perfil, está nos meus amigos há anos.» A isto chama-se verificação fora de banda: confirmar uma identidade por um caminho diferente daquele por onde chegou o pedido.
Os momentos em que faz mais diferença
A regra vale sempre, mas há alturas em que a diferença se vê melhor.
- Quando chega um pedido de um nome que conheces, mas com um segundo perfil. Se já estás ligado a essa pessoa, uma nova conta com o nome dela merece uma verificação antes de tudo.
- Quando as sugestões de amizade te mostram caras desconhecidas. A plataforma calcula-as de forma automática: ser sugerido não é o mesmo que ser de confiança.
- Depois de um evento público. Um casamento, um concerto, uma feira: chegam pedidos de pessoas que «também lá estavam». Alguns são verdadeiros, outros não.
- Nos grupos e comunidades. Conversar com alguém num grupo de interesses é diferente de lhe dar acesso ao teu perfil pessoal.
- Nos contextos profissionais. Um pedido de um suposto recrutador ou cliente pode ser autêntico; o acesso ao teu perfil pessoal continua a ser outra questão.
- Quando estás a atravessar uma fase delicada. Uma mudança de casa, um luto, uma separação, um período de solidão: são momentos em que um contacto simpático e insistente é mais difícil de avaliar com calma. Não há nada de estranho nisso; é apenas um bom motivo para te dares mais tempo antes de aceitar.
Como aplicar a recomendação, passo a passo
Não precisas de rever tudo numa noite. Precisas de um critério para usar sempre que chega um pedido.
- Faz-te uma pergunta antes de aceitar. «Sei quem é esta pessoa fora das redes sociais?» Se a resposta for sim, ótimo. Se for «acho que sim», passa ao ponto seguinte.
- Confirma os pedidos duvidosos por outro canal. Uma mensagem, um telefonema, uma pergunta a um amigo comum que conhece a pessoa. Não peças confirmação ao próprio perfil: quem se faz passar por outra pessoa vai responder que sim de qualquer maneira.
- Olha para o perfil com calma. Há quanto tempo existe, se as fotografias parecem vividas ou de catálogo, se os amigos em comum conhecem mesmo aquela pessoa. Os sinais típicos estão reunidos no artigo sobre os sinais de um perfil falso.
- Distingue quem segues de quem te segue. Para seguir uma fonte pública — uma entidade, um jornal, um especialista — não é preciso que essa fonte tenha acesso ao teu perfil. Já quem quer ver as tuas fotografias e as tuas deslocações deve ser alguém que conheces.
- Deixa pendente sem remorsos. Um pedido por aceitar não é uma ofensa. Se a pessoa é real e te conhece, vai encontrar outra maneira de se dar a conhecer.
- Revê o círculo de vez em quando. Contactos de que não te lembras, perfis vazios, contas que nunca te escreveram: podes removê-los com discrição. O método, passo a passo, está no artigo sobre como arrumar os contactos das redes sociais.
E quem só conheces online?
Há amizades que nascem mesmo na rede: um parceiro de jogo com quem falas há um ano, alguém de um fórum de fotografia, uma pessoa com quem trocas ideias num grupo de corrida. A R23 não as põe de lado. Pede apenas que a confiança se construa aos poucos, como fora do ecrã.
Na prática, costuma funcionar assim:
- Primeiro a conversa, depois o perfil. Continuar a falar no espaço onde se conheceram — o grupo, o jogo, o fórum — dá tempo para perceber quem está do outro lado, sem abrir logo as fotografias da família.
- Coerência ao longo do tempo. Uma pessoa real conta a mesma história em momentos diferentes, tem dias bons e dias maus, e não tem pressa de te levar para outro lado.
- Uma chamada de vídeo ou um encontro em grupo. Não é uma prova absoluta, mas é um passo que um perfil inventado tende a adiar com desculpas sempre novas.
- Nenhum pedido de dinheiro, de fotografias íntimas ou de códigos. Se aparecer um, a conversa deixou de ser uma amizade, seja qual for o tom com que chega.
Quando estes passos correm bem, aceitar o pedido é uma decisão tranquila — e tomada por ti.
Erros comuns a evitar
- «Temos amigos em comum, portanto está tudo bem.» Os amigos em comum dizem apenas que outras pessoas aceitaram aquele perfil, não que o conhecem.
- Aceitar para não parecer mal-educado. A cortesia é devida às pessoas, não às contas. Ninguém tem direito de acesso à tua vida só porque o pediu.
- Pedir confirmação ao próprio perfil. «És mesmo tu?» é uma pergunta a que um impostor responde sempre que sim. A verificação faz-se noutro lado.
- Confundir números com valor. Muitos seguidores não tornam um perfil mais seguro nem mais importante; muitas vezes só o tornam mais exposto.
- Pensar que chega não publicar nada de relevante. Também a lista dos teus amigos, os «gostos» e as fotografias em que foste identificado contam muito sobre ti.
- Manter contactos que já não reconheces. O círculo muda com o tempo: um contacto útil há anos pode ser hoje um perfil abandonado, ou ter ido parar a outras mãos.
Ligação ao Framework Cyber Welfare
A R23 leva a segurança para um sítio onde raramente se procura: as relações. É o comportamento que transforma «aceitar» de reflexo em escolha.
| Pilar | Contributo deste conteúdo |
|---|---|
| Competências | Saber confirmar um pedido duvidoso por outro canal e reconhecer os sinais mais comuns de um perfil falso |
| Consciência | Perceber que o círculo de contactos decide quem vê o que partilhas, e que a tua rede pode ser usada para enganar outras pessoas |
| Comportamento Seguro | Aceitar e deixar entrar no próprio perfil sobretudo pessoas conhecidas, distinguindo as fontes que se seguem dos contactos com acesso aos próprios conteúdos |
Níveis de maturidade digital.
- FL1 – Básico. Aceitas quase todos os pedidos, sobretudo se houver algum amigo em comum. É o ponto de partida mais frequente, não uma culpa.
- FL2 – Inicial. Paras diante dos pedidos de desconhecidos e distingues as fontes que segues dos contactos que veem o teu perfil.
- FL3 – Autónomo. Confirmas por outro canal os pedidos duvidosos e revês com regularidade o teu círculo de contactos.
- FL4 – Hábil. Reconheces de imediato perfis duplicados ou montados de propósito, e sabes denunciá-los e avisar quem possa estar envolvido.
- FL5 – Especialista-Guia. Ajudas familiares, colegas ou alunos a construir o mesmo critério, sem os fazer sentir culpados pelas escolhas passadas.
O nível de referência deste conteúdo é o FL1 – Básico.
A R23 é a passagem decisiva de FL1 para FL2 na vida nas redes sociais, e continua a ser uma referência ativa em todos os níveis seguintes.
Como saber se já a estás a aplicar
Três perguntas, para responder com honestidade.
- Se percorrer a minha lista de contactos, reconheço quase todos os nomes e sei dizer de onde os conheço?
- Da última vez que recebi um pedido duvidoso, confirmei fora da rede social antes de aceitar?
- As pessoas que veem as fotografias dos meus filhos, da minha casa ou das minhas viagens são aquelas para quem as publiquei?
Lista breve
- ☐ Antes de aceitar um pedido, pergunto-me se conheço a pessoa fora das redes sociais
- ☐ Os pedidos de um segundo perfil de um amigo, confirmo-os sempre por outro canal
- ☐ Não considero os amigos em comum uma prova suficiente
- ☐ Sei distinguir entre seguir uma fonte pública e dar acesso ao meu perfil
- ☐ Nos últimos meses removi pelo menos um contacto que não reconhecia
- ☐ Se um contacto me pede dinheiro ou códigos, confirmo antes de responder
Se ficou uma caixa por assinalar, já tens o teu próximo passo. Para uma medida mais estruturada do teu nível, podes fazer a Autoavaliação de Resiliência Digital.
A R23 junta-se a outras recomendações sobre redes sociais, cada uma com o seu âmbito: limitar o início de sessão através das redes sociais diz respeito aos serviços ligados ao teu perfil, enquanto as recomendações de não publicar fotografias com códigos QR e de desativar a localização nas fotografias tratam do que publicas. As definições de privacidade dos perfis serão, por sua vez, o tema das futuras Medidas de Segurança MS6 e MS7.
Em síntese
O círculo de contactos decide quem vê o que partilhas. Aceitar um pedido não é um cumprimento: é dar acesso à tua vida pessoal e, indiretamente, à dos teus amigos.
A solução não é fechares-te, é escolher: deixar entrar sobretudo pessoas que conheces mesmo, confirmar os pedidos duvidosos por outro canal, distinguir as fontes que segues dos contactos que te veem a ti, e rever o círculo de tempos a tempos, sem dramas. Seguir apenas pessoas conhecidas nas redes sociais é, no fundo, isto.
As redes sociais continuam a ser um lugar para conhecer gente nova. A diferença está na ordem: primeiro a confiança, depois o acesso.
Pergunta para pensar. Se hoje pudesses ver a lista completa das pessoas que olham para as tuas fotografias, quantas reconhecerias de verdade?
Aprofundar esta recomendação
Esta recomendação é o núcleo de uma unidade de conteúdos. Cada artigo desenvolve um lado diferente da mesma escolha.
- riscos dos contactos desconhecidos — o que fica atingido, em termos de confidencialidade, integridade e disponibilidade, nas tuas informações e na tua rede
- consequências de um perfil falso entre os contactos — os efeitos concretos no dinheiro, nas relações, no tempo e no bem-estar
- arrumar os contactos das redes sociais — a revisão da lista e o que fazer se já aceitaste um perfil falso
- sinais de um perfil falso — os indícios a observar e o que querem dizer
- como funcionam as sugestões de amizade — as funções das plataformas que decidem quem te é proposto, com vantagens e limites
- ataques com perfis falsos — as maneiras como os perfis falsos são usados para enganar as pessoas e as suas redes
Recursos relacionados
Dois conceitos do glossário e um guia prático que atravessam esta recomendação:
- verificação fora de banda — confirmar uma identidade por um canal independente do que trouxe o pedido
- ameaça informática — o que conta como ameaça, incluindo as que não usam nenhuma linha de código
- rever as permissões concedidas — o que as aplicações e o perfil deixam ver de ti mesmo sem partilhares nada de propósito, e onde o verificar
Dá o primeiro passo: o Programa «Protege a Tua Privacidade Digital» acompanha-te gratuitamente, uma recomendação de cada vez.









